domingo, 5 de setembro de 2010

Infância.

Na época do colégio, mais ou menos na sétima série, tinha uma tal de Juliana na sala. Sabe aquela menina muito simpática, que fala com todo mundo sempre mostrando um sorriso maior do que o próprio rosto? Até mesmo para aquele velhinho característico de 67 anos que vende bombom e picolé na saída de todo colégio? Pronto. Ela não era assim. Era pior. Bem pior que isso. Juliana, ou simplesmente Ju para os mais íntimos (e quando eu falo íntimos, eu quero dizer quase todo o colégio, com exceção do carteiro, que quase ninguém o via, o segurança solitário da madrugada e a diretora que tinha inveja do corpo sensual da simpática Ju. Aliás, para a diretora, Juliana Oliveira), deixava os garotinhos loucos. Uma coisa é certa, muitos desses pré-adolescentes passaram mais de 35 minutos no banheiro fazendo outra coisa que não era tomar banho. Tudo isso só por causa da Ju. Tá, tinha também essa historinha de que, nessa época, os hormônios estão à flor da pele. Mas ver a Ju falando com um pirulito vermelho na boca enquanto jogava o cabelo longo e louro para um lado e para outro era sacanagem. Não tinha falta de hormônio que segurasse os pensamentos férteis daqueles meninos. O Luquinhas mesmo, coitado, magro igual a sibito baleado, com aqueles óculos fundo de garrafa, um aparelho fixo e outro móvel que atrapalhavam bastante a sua dicção e uma coleção de espinhas na testa doada pelo cabelo oleoso que escondia a metade do seu rosto, era louco pela Ju. Enquanto os outros garotos passavam 35 minutos no banho, ele deveria passar, pelo menos, 1 hora e 20. E olhe que a criança tomava banho umas 4 vezes por dia. Ele era o mais apaixonado. Fazia declarações no seu caderno, que tinha na capa uma ilustração do Wolverine, personagem do X-Men. Pra você ter noção, uma vez, a Ju estava tão satisfeita com um pirulito, dessa vez de uva com chiclete dentro, que o intervalo tocou e o coitado do Luquinhas demorou uns 5 minutos pra levantar da cadeira. Provavelmente não queria passar vergonha quando, ao se levantar, todos os colegas percebessem que havia um corpo estranho querendo sair pelas suas calças. Acho que o Luquinhas só foi esquecer a Ju depois da sua segunda namorada, ou seja, lá pros 24 anos. Ninguém sabe dizer, mas a Ju foi a primeira menina dos sonhos de todos os garotos do colégio São Sebastião de Lurdes Maria Castro Batista de Boa Viagem. Era por isso que ninguém gostava do Fernando, aquele paulista otário, feio, chato, riquinho metido à merda que namorava a lindíssima e encantadora Ju. O garoto era quase do primeiro ano e tava com uma menina da sétima série. Que pedófilo. Não tinha vergonha nenhuma na cara. Ficava lá, beijando a Ju na frente de todos, como se tivesse mostrando um troféu pra uma plateia de fracassados. Mostrando não, lambuzando. Eu aposto que ele não sabia nem beijar direito. O Luquinhas mesmo, num ato desesperador de vingança e ciúme, já espremeu uma de suas espinhas no lanche do Fernando. E, apesar de realmente ser nojento, todo mundo aprovou, é claro.
- Oh, mano!
Oh, mano? Toma ai o "oh, mano", paulista de merda. Aposto que foi exatamente isso que todos os garotos pensaram naquela hora. Uma vingança por ter pego a garota da sala. A mais bela e inteligente de todas. Calma, inteligente nem tanto. Mas ela sempre tirava notas boas. Tudo bem que toda vez tinha alguém que dava fila pra a Ju, achando que algum dia ela iria retribuir com algo melhor do que um sorriso e um obrigado (que muitas vezes nem acontecia). Mas, apesar do ato nunca ter se concretizado, não custava nada tentar. O ruim é que o tempo foi passando, todo mundo foi crescendo. Inclusive a Ju. Aliás, em especial a Ju. Ela cresceu tanto, tanto que acabou ganhando outro apelido: Big Ju. Da sétima para o primeiro ano, a Ju engordou uns 30kg. O paulista foi o primeiro a se mandar. Engraçado é que, no final das contas, até que ele era um cara limpeza, gente fina. Acabou ficando no nosso grupinho quando a gente passou de ano e ele repetiu. Duas vezes. Mas o cara realmente era gente boa. Já a Ju, ou melhor, Big Ju não era mais aquela coisa, sabe? E a gente viu que tudo era passageiro, tudo mudava. Menos o velhinho do picolé, que, até hoje, ainda tá lá.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Meu meio.

Vida de redator é complicado. Quisera eu ter escolhido outra profissão mais promissora, onde você pensasse pouco e ganhasse muito. Mas a paixão que arde cada vez que uma ideia boa bate na cuca é algo emocionadamente viciante. Um vício que começa pelo cérebro e acaba lá mesmo. É nessa hora que você fica sentado, curtindo a vibe criativa que entretém seu ego. Pena durar tão pouco. Quando você menos espera, já recebe um PIT novo que fica estagnado no canto direito da sua mesa. Ideia vem, ideia vai e nada. Tudo é básico ou xerox falsa de uma campanha já existente. De um minuto para o outro, você deixou de ser o herói e virou o vilão. Até o momento que vem aquela ideia do caralho! (Termo usado por 99,99% dos publicitários quando uma ideia é alem do excepcional). É ai que o bicho pega, a overdose criativa acontece e a paixão vira amor. Tudo isso seguido pelo pensamento: eu amo o que faço, mas odeio o que me pagam. É inevitável, todo publicitário vai achar que recebe pouco pelo que faz. Mas sabe de uma coisa? É a pura verdade. Todos nós sabemos disso, mas temos medo de confrontar a dura, malvada e mentirosa realidade. É uma atitude covarde que se alimenta pelo amor ao trabalho. De vez em quando eu penso: e se houvesse uma greve dos publicitários? A resposta também é uma pergunta: iríamos ganhar mais? Pronto. Não ouso ir além disso numa discussão insana como essa. Pelo visto, deu pra perceber que essa minha indagação é tão medrosa quanto as decisões de alguns clientes regionais, que, em questão de inovação, estão mais que ultrapassados. Mas será que realmente eles têm medo? Ou apenas entraram naquela área cômoda onde as ideias criativas caíram mortas dando lugar à preguiça cerebral? Enfim, vou parar por aqui. Até porque já são muitas perguntas para alguém que sempre tem que ter respostas.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Lembranças.

Eu tinha uma amiga que deixou de ser minha amiga. Não houve briga, nem confusão. Deixou, sumiu, passou. Ou ficou, não sei ao certo. Mas a gente costumava ter uma bela amizade. Sabe quando você fica anos sem ver alguém, mas quando tem algum contato com essa pessoa é aquela festa? A gente era assim. Abraços, carinhos, conversas e nenhum duplo sentido. Coisa rara hoje em dia.
Ela tinha um cabelo curto, aqueles bem modernos para a época, onde quase ninguém sabia quem era Eddie e achava que Bossa Nova era música para idosos (Ainda bem que a gente amadurece). Hoje, ser “cult” é ser legal. Engraçado como as coisas mudam, não é mesmo? Pois é, nossa amizade também mudou. Mas nesse caso, eu acho que mudar não é a palavra certa, desaparecer seria mais apropriado. Tudo bem que a gente não tinha aquela amizade, onde você sabe tudo sobre a pessoa e a pessoa sobre você. Mas você sente que existe algo diferente, uma conexão. Muitos dizem destino, outros dizem que são os cosmos iluminados, eu digo que bateu e pronto.
Até hoje eu lembro, um sorriso lindo com aqueles dentes brancos bem juntinhos. Ela sorria, todo mundo sorria junto. E as unhas? Coloridas conforme a roupa. Se saísse de camisa azul, as unhas eram azuis. E olhe que ela, como toda pessoa normal, mudava de roupa todo santo dia. É, tudo bem, ela não era assim, tão normal, mas era limpinha. Limpinha até demais. Mas, voltando às unhas, e que unhas, eram grandes e, além de chamarem muita atenção, faziam um carinho que só elas sabiam fazer. Para cima, para os lados e para baixo. Bastava isso e todos os cabelos do corpo subiam imediatamente. Às vezes, parecia até que tinham vida própria.
Ela usava colares diferentes, várias pulseiras e sempre balançava bastante a mão quando falava com alguém.
- Xandão! E logo depois vinha um abraço. Só três pessoas me chamavam assim: ela, a melhor amiga dela e uma personagem de outra história. De vez em quando, a melhor amiga dela ainda me chama assim, mas confesso que não gosto de ouvir. Não por não gostar do apelido, mas por trazer lembranças.
Lembranças de uma simples ligação: - Você soube?! E veio a surpresa: - Isso é mentira! Você é doida?! Infelizmente, a pessoa do outro lado do telefone não tinha nenhum problema mental. Ainda lembro como se fosse ontem. As lágrimas caindo, meu primo ao meu lado e minhas mãos indo em direção à parede. Murros e mais murros seguidos de raiva, ódio, desespero, tristeza, solidão.
Cadê o sorriso encantador? Cadê as unhas que faziam carinho nas minhas costas? Cadê o abraço que me recebia tão calorosamente? Cadê minha amiga? Cadê Nany?
A dor vinha e a imagem daquela menina meiga, inteligente e super divertida a acompanhava. Desespero e mais desespero. Aliás, não sei nem que palavra usar. Desespero é simples, básico. Queria algo mais forte, mas até hoje não encontrei. O sorriso, transformado em choro. O abraço, em vazio. A unha, em algo irreversível.
Em 2005, eu tinha uma amiga que deixou de ser minha amiga. Não houve briga, nem confusão. Houve o inesperado, o inconstante, a vida. E digo: nunca tive oportunidade de dizer que a amava como uma grande amiga.

Beijos Nany. Espero te encontrar de novo e quem sabe poder receber aquele carinho que fazia qualquer cabelo ficar arrepiado.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Este filme de novo?

É sempre a mesma fórmula. A mocinha está apaixonada pelo mocinho, que é quase perfeito, se não fosse os erros utópicos que só as amigas da mocinha veem, e até comentam, mas ela nunca consegue enxergá-los. Aliás, sabe que os erros existem, mas engana a si própria preferindo não vê-los. Até que aquele divino dia chega, acompanhado do encontro com o malvado, é claro. No começo, ela o odeia. Ele não passa de um ser falastrão, imoral, indecente, orgulhoso e, acima de tudo, sexy. Mas o tempo passa e traz um acontecimento que acarreta numa união drástica dos dois. Carro quebrado, contratação profissional, parceria musical e, até mesmo, ou melhor, na maioria das vezes, problemas supérfluos do interior feminino já foram os responsáveis por tal união. Eles são obrigados a passar um bom tempo juntos. Ela odeia isso, ele ama o fato dela odiar isso. E eis que, num certo momento, ao conhecer a sua linda sobrinha de cabelos lisos e sorriso meigo ou os seus melhores amigos que só falam bem dele e da tragédia que marcou a sua vida, ela para por um instante e olha mais atentamente para o até então odiado, incompetente e, não vamos esquecer, sexy ser humano. É, ele sempre está impecável nessa hora do filme. E, depois de um sorriso aqui e um abraço acolá, não é que ela encontra algo bom, amável, doce e deliciosamente irresistível no malvado? Milagrosamente se dá de conta que está completamente apaixonada pelo amor da sua vida. Ela se entrega, eles se beijam e a noite mais incrível acontece. Tudo está perfeito. Mas o mocinho do início do filme resolve aparecer. Ééééé, aquele mesmo que ela tanto amava. E agora? O que fazer? Ela pensa. O mocinho aparece com um pedido para deixar o relacionamento dos dois ainda mais sério. - muitas vezes é aquela velha imagem dos joelhos no chão, uma mão indo ao bolso e um impecável cubículo que guarda o tão preciso anel -. Ela fica petrificada. Olha para o ex malvado, olha para o mocinho e num ato desesperador – e burro – ela escolhe o último. Uma semana se passa. Mais três dias. Até que o rejeitado vai atrás dela, a encontra e conta tudo o que sente. O escolhido, corno e único personagem que ninguém tem pena, pergunta o que está acontecendo e quem é aquele intruso. Ela resolve se abrir e contar tudo. A desculpa é a mesma: não é você, sou eu. Às vezes o cara entende e às vezes o cara entende e ainda se vinga do desconhecido com um belo murro no meio do nariz. O nariz sangra, mas não quebra. A mocinha se abaixa desesperadamente e olha nos olhos do seu atual e grande amor. Ele sorrir. Ela sorrir. Os dois se beijam. E finalmente o malvado vira mocinho.
Como eu disse: a fórmula é sempre a mesma. O que muda é a maneira de falar. Engraçado é que sempre dá certo. A plateia feminina chora e a masculina esconde o choro e diz que o filme não foi nada demais. No final das contas, os dois aprovam e perguntam se aquilo pode ser real – em outras palavras, se pode acontecer com eles -.
O problema é que a mocinha da vida real é mais iludida do que a da ficção, sempre espera o melhor do mocinho, mas ele, além de ser bem menos perfeito, agrada qualquer uma que lhe estender a mão. Além disso, e para piorar a situação, o bendito do malvado só vive em extinção.
Vai ver que esse é o motivo do sucesso dessa fórmula. Tentar abrir os olhos de quem vive assistindo a mesma história e se quer aprende algo com ela. Acho que os roteiristas, diretores, produtores – enfim, seres pensantes – lançam esses filmes com apenas uma finalidade: mudar nossas cabecinhas.

Não sei se vão conseguir. Mas que vão lucrar... Isso sim é fato.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Num certo lugar.

Acabei de me encontrar, apesar de ainda continuar perdido. De um lado, escuridão; do outro, o desconhecido. Olho para frente e para baixo, mas não consigo enxergar absolutamente nada. Apenas um ponto branco escondido no dedinho minúsculo do meu pé direito. Tão pequeno que se acomoda perfeitamente entre o espaço insignificante do meu entre dedos. Mas, mesmo assim, ainda consigo ver o ponto tentando brilhar, tentando chamar minha atenção. Acho que, para completar seu objetivo, ele precisa se esforçar mais. Além dele, não vejo mais nada. Só sinto. Uma dor que na mesma hora é alegria. Uma alegria que na mesma hora é dor. Fico até confuso em tentar distinguir o primeiro do segundo, mas sei que eles são bastante diferentes.
Outro sentimento estagnado é a saudade. Saudade de abrir os olhos, apesar de já estarem abertos. Sinto falta de saber por onde ando e se esse caminho é o certo. Acho que foi esse o motivo que me fez estar onde estou. Se você não presta atenção quando faz pela primeira vez, a segunda vai acontecer muito mais fácil. Por isso que assassino é assassino. A primeira é quase impossível, a segunda é difícil, a terceira já começa a ser apenas o simples apertar o gatilho.
E quando você menos espera, a escuridão obscurece o seu ambiente. E você se pergunta: onde estou? Para onde vou? O que faço? Ai vai olhar para um lado e vai ver escuridão. Vai olhar pro outro e vai ver o desconhecido.

É. Acho melhor me arriscar pelo desconhecido, quem sabe eu tenho a sorte de encontrar uma vela, alguns fósforos e poder acender uma luz que ilumine novamente o meu caminhar.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Ela mudou.

O tempo passa, passa o tempo e, mesmo assim, algumas pessoas ainda continuam as mesmas. Mesmos pensamentos, mesmas ideologias, mesmos amigos, mesma vida. Não crescem, não vivem, não mudam. Não que elas sejam piores por causa disso, nem que elas sejam melhores por causa disso, elas apenas permaneceram as mesmas. Sem acrescentar nem subtrair nada na vida. Pena, não foram esponjas para absorverem o que a vida tem de melhor: ela mesma. Apenas continuaram, sem sal, sem gosto, sem nada. Num vazio contínuo de um cotidiano medíocre. A segunda é igual à terça; a terça, igual à quarta e assim sucessivamente. Na melhor das hipóteses, o sábado é diferente. E só ele, porque no domingo é necessário se conter, renovar a mente, e, só assim, continuar com a triste rotina. Sorte daqueles que têm um dia diferente, onde em todos os momentos há uma aventura nova, um sorriso novo, uma piada nova. Os que inovaram seus pensamentos, trabalharam novas ideologias, conheceram novos amigos, mudaram de vida. Esses sim, sabem absorver o que a vida tem de melhor. Não vivem no passado, pelo contrário, dão valor a ele olhando para o futuro. Veem as fotos e dizem: como eu era diferente; não fisiologicamente falando, mas psicologicamente e, quem sabe, espiritualmente. Relembram o passado como fonte de inspiração para o presente e assim dão mais valor aos amigos que um dia marcaram suas vidas. Aprendem que um sorriso vale mais, porque você não tem a certeza de que ele estará lá na próxima vez. E observam que as conversas não têm mais timidez, tudo é dito, mesmo que os assuntos não sejam mais o que antigamente costumavam ser. E descobrem que a inocência nem sempre acompanha os pensamentos. Que uma feição pode ser ilusória e passar uma expressividade que não está de acordo com a pura verdade sobre alguém.

Eles veem que a mudança carrega fardos. Alguns bons, outros ruins. Mas, em tudo, reconhecem que a vida é bem melhor quando as mudanças acontecem. E, mesmo após vários anos, podem olhar para uma pessoa e dizer: ela mudou. Nem pra melhor, nem pra pior. Apenas mudou.

domingo, 12 de julho de 2009

A você. Que me apresentou a mais uma de Vinicius.

Abusei da regra três?
Ou a regra três abusou de mim?
Só sei que, num piscar de olhos,
Entrei no temido lugar, onde o menos vale mais.
Ou o mais vale menos.
O que importa? Agora, tudo vale igual.
Bem que ele disse: o perdão também cansa de perdoar.
Pelo visto, vou curtir o deserto. Apenas só ou sozinho.
Num escuro perturbante.
Mas com a brecha de luz daquela lâmpada que insiste em brilhar.
E mesmo que com tão pouco você já foi,
Acredito que com o muito você ficou.
Porque os momentos felizes deixaram raízes no penar.
E se um dia a tristeza quiser entrar,
Lá estarei eu, lembrando do melhor sorriso.
E quem sabe, poderei até chorar.