Na época do colégio, mais ou menos na sétima série, tinha uma tal de Juliana na sala. Sabe aquela menina muito simpática, que fala com todo mundo sempre mostrando um sorriso maior do que o próprio rosto? Até mesmo para aquele velhinho característico de 67 anos que vende bombom e picolé na saída de todo colégio? Pronto. Ela não era assim. Era pior. Bem pior que isso. Juliana, ou simplesmente Ju para os mais íntimos (e quando eu falo íntimos, eu quero dizer quase todo o colégio, com exceção do carteiro, que quase ninguém o via, o segurança solitário da madrugada e a diretora que tinha inveja do corpo sensual da simpática Ju. Aliás, para a diretora, Juliana Oliveira), deixava os garotinhos loucos. Uma coisa é certa, muitos desses pré-adolescentes passaram mais de 35 minutos no banheiro fazendo outra coisa que não era tomar banho. Tudo isso só por causa da Ju. Tá, tinha também essa historinha de que, nessa época, os hormônios estão à flor da pele. Mas ver a Ju falando com um pirulito vermelho na boca enquanto jogava o cabelo longo e louro para um lado e para outro era sacanagem. Não tinha falta de hormônio que segurasse os pensamentos férteis daqueles meninos. O Luquinhas mesmo, coitado, magro igual a sibito baleado, com aqueles óculos fundo de garrafa, um aparelho fixo e outro móvel que atrapalhavam bastante a sua dicção e uma coleção de espinhas na testa doada pelo cabelo oleoso que escondia a metade do seu rosto, era louco pela Ju. Enquanto os outros garotos passavam 35 minutos no banho, ele deveria passar, pelo menos, 1 hora e 20. E olhe que a criança tomava banho umas 4 vezes por dia. Ele era o mais apaixonado. Fazia declarações no seu caderno, que tinha na capa uma ilustração do Wolverine, personagem do X-Men. Pra você ter noção, uma vez, a Ju estava tão satisfeita com um pirulito, dessa vez de uva com chiclete dentro, que o intervalo tocou e o coitado do Luquinhas demorou uns 5 minutos pra levantar da cadeira. Provavelmente não queria passar vergonha quando, ao se levantar, todos os colegas percebessem que havia um corpo estranho querendo sair pelas suas calças. Acho que o Luquinhas só foi esquecer a Ju depois da sua segunda namorada, ou seja, lá pros 24 anos. Ninguém sabe dizer, mas a Ju foi a primeira menina dos sonhos de todos os garotos do colégio São Sebastião de Lurdes Maria Castro Batista de Boa Viagem. Era por isso que ninguém gostava do Fernando, aquele paulista otário, feio, chato, riquinho metido à merda que namorava a lindíssima e encantadora Ju. O garoto era quase do primeiro ano e tava com uma menina da sétima série. Que pedófilo. Não tinha vergonha nenhuma na cara. Ficava lá, beijando a Ju na frente de todos, como se tivesse mostrando um troféu pra uma plateia de fracassados. Mostrando não, lambuzando. Eu aposto que ele não sabia nem beijar direito. O Luquinhas mesmo, num ato desesperador de vingança e ciúme, já espremeu uma de suas espinhas no lanche do Fernando. E, apesar de realmente ser nojento, todo mundo aprovou, é claro.
- Oh, mano!
Oh, mano? Toma ai o "oh, mano", paulista de merda. Aposto que foi exatamente isso que todos os garotos pensaram naquela hora. Uma vingança por ter pego a garota da sala. A mais bela e inteligente de todas. Calma, inteligente nem tanto. Mas ela sempre tirava notas boas. Tudo bem que toda vez tinha alguém que dava fila pra a Ju, achando que algum dia ela iria retribuir com algo melhor do que um sorriso e um obrigado (que muitas vezes nem acontecia). Mas, apesar do ato nunca ter se concretizado, não custava nada tentar. O ruim é que o tempo foi passando, todo mundo foi crescendo. Inclusive a Ju. Aliás, em especial a Ju. Ela cresceu tanto, tanto que acabou ganhando outro apelido: Big Ju. Da sétima para o primeiro ano, a Ju engordou uns 30kg. O paulista foi o primeiro a se mandar. Engraçado é que, no final das contas, até que ele era um cara limpeza, gente fina. Acabou ficando no nosso grupinho quando a gente passou de ano e ele repetiu. Duas vezes. Mas o cara realmente era gente boa. Já a Ju, ou melhor, Big Ju não era mais aquela coisa, sabe? E a gente viu que tudo era passageiro, tudo mudava. Menos o velhinho do picolé, que, até hoje, ainda tá lá.
domingo, 5 de setembro de 2010
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