quarta-feira, 29 de junho de 2011

GPS

Ah, se a vida tivesse GPS.
“No seu próximo relacionamento, acelere”.
“Siga neste caminho por mais 10 meses que você vai receber uma excelente proposta de emprego”.
“Para pegar a sua mulher colocando gaia em você, dobre à direita”.
No mínimo, a gente iria se preocupar menos e viver mais. Aliás, um GPS seria ideal não só para a vida das pessoas. Mas também para quem não está nem ai para a vida. Um exemplo: imagine aquele típico suicida. Coitado, fica horas e horas calculando as melhores formas de ter êxito em uma das únicas coisas que o faria feliz. Fora isso, ele sabe que, se fracassar, provavelmente nunca mais vai poder repetir o seu tão esperado plano. Repare na tensão desse rapaz. Com o GPS, ele não passaria por toda essa angústia.
“Não senhor, não pegue uma gilete para cortar o seu pulso. Você tem 95% de chances a mais se comprar uma arma e atirar na sua cabeça.”
Ok, concordo que esse não foi um exemplo politicamente correto. Mas já que entramos no assunto politicamente, não acha que seria fantástico ter um GPS que mostrasse quais são os políticos que você nunca deveria votar?
“O Leando da Silva, do PBFSD, está esperando a sua votação para dar uma acelerada na corrupção e começar a enriquecer.”
Melhor ainda seria na hora da cama.
“Agora, acaricie o seio esquerdo. Espere 15 segundos e entre no túnel respeitando o limite de velocidade.”
Pois é, tudo seria mais fácil. E, se você pensar direitinho, as pessoas seriam menos falsas. Até porque o GPS seria um ótimo dedo duro.
Filho - “Mãe, estou indo estudar na casa de Betinho”
GPS da Mãe - “Filho indo em direção a Porto de Galinhas”
Telefone da Mãe - “O que danado você está fazendo em Porto de Galinhas?”
Cinto da Mãe - “Tchá, pei, paft, puft!!!”
E um estraga prazeres melhor ainda.
Namorado - “Oi amor, estou indo dormir, tá?”
GPS da Namorada - “Namorado está se locomovendo para o Fiteiro.”
Namorada - “Hun, que bom! Finalmente posso ficar com o Sicrano sem ter aquele peso na consciência.”

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Arte e Vida.

Ela tinha 14 anos e muito mais do que cachos louros na cabeça. Enquanto os seus amigos brincavam de boneca ou empinar pipa nas tardes de sábado, ela já conversava sobre a novela das oito. Entendia cada personagem, as futilidades e complexidades da trama e o que tudo aquilo representava para a cultura pop brasileira. Ouvia a poesia de Chico, tentava entender os amores de Vinícius e se deslumbrava com a loucura de Tom. Mas nunca mudou a rádio quando o axé dava as suas caras e mostrava o quanto era bom dançar. Puxou ao pai, que amava arte, cinema e fotogragia. Nas manhãs dos domingos, trocava o sol e a praia por um passeio ao museu da cidade. Ficava pensativa com a arte de Mário Silésio e se encantava com as montanhas escarpadas multicoloridas de Claudio Fonseca. Passava a tarde lendo livros e escutando música, mas sempre com o computador ao lado esperando uma boa conversa com os amigos. Conhecia tudo sobre redes sociais, tinha conta no Twitter, escrevia num Blog e nunca se envolveu no Orkut, apenas no Facebook. Era apaixonada pelo o que fazia e tinha uma queda pelo o que nunca fez. Um beijo, um carinho, um amor. Nada do que lia nos livros ou escutava nas músicas fazia parte da sua vida. Nem sequer aquela troca de olhares entre dois desconhecidos que faz qualquer um ficar com friozinho na barriga e uma dúvida estagnada no cérebro. Foi ai que ela percebeu o quanto a sua vida deveria ter mais ação e menos ficção. Continuou lendo, apreciando as artes, indo a teatros, mas agora compartilhava tudo isso com o Pedro, que também a levava a jogos do estadual, fins de tarde na praia, beijos na frente da TV e viagens tão inesquecíveis que ela finalmente entendeu que, para se fazer uma obra de arte, é necessário viver.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

notícia

Era uma sexta-feria, mais ou menos 9 horas da noite, quando ele olhou para o céu à procura de uma resposta. Por azar, tinha acabado de chover e as estrelas saíram de cena, dando lugar às nuvens acizentadas. Se fosse um filme, com certeza a trilha sonora teria apenas um violão básico, no máximo um piano acompanhado de uma voz grave. Nenhum corte brusco, nem movimentos de câmera. Apenas o close no rosto do personagem principal da história, que tinha acabado de perder o seu grande amor num acidente grave horas antes. Mas como a vida não é nenhum filme, a única trilha que ele escutava era a dos carros passando só para lembrar ainda mais da sua dor. Pegou um cigarro, Free, porque estava querendo parar de fumar, e colocou na sua boca seca. Nessa hora, ele já não comia, só andava com o litro de álcool na sua mão esquerda esperando um sinal. Algo que o fizesse voltar atrás e dizer o quanto a amava. Entre um gole e outro, uma ideia controlava a sua mente de tal forma que ele não conseguia pensar em mais nada. “A culpa foi minha.” Uma briga antes do acidente tinha acontecido. Mais uma vez, ele esqueceu de baixar a tampa do vazo sanitário. Algo que ela odiava de todo o coração e ser, fazendo questão de reclamar sempre que o pegava no flagra. Mas dessa vez, ele não aguentou e discutiu sem tapas, mas com muita violência. Ninguém sabe se tinha sido o estresse do trabalho ou simplesmente o cansaço de ouvir a mesma coisa durante os 5 anos de relacionamento. Ela pegou a chave do carro e saiu chorando em desespero. Logo depois, veio a triste notícia. Ele desceu, comprou um cigarro e uma garrafa de uísque. Até parar num certo ponto e olhar para o céu. Bebeu, fumou, pensou. Entrou no seu carro e quis sair dirigindo com o ponteiro passando dos 180. Mas resolveu abrir o porta-luvas. O sinal que ele tanto esperava apareceu, uma foto com o filho do casal. Desligou o carro, jogou o cigarro e a bebida fora. Subiu e deitou na cama com o seu filho, abraçando-o da mesma forma que fazia todos os dias antes de dormir com a sua mulher.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Torcida.

É da torcida que vem a nossa força. É daqui que eles cantam com o corpo e gritam com a alma. Milhares e milhares numa só batida, guiados por uma única paixão. É da torcida que vem o peso da camisa, o respeito pelo brasão. Onde a nossa bandeira é erguida com orgulho e garra, de uma nação que só vive por uma única coisa: o gol. É nesses loucos e fanáticos que está a nossa grande reviravolta. Ouvir os seus gritos é o mesmo que ser guiado para a glória. O coração fala mais forte e o espírito domina todo o resto do corpo. É dessa torcida, a mais apaixonada do Brasil, que está a esperança de um dia ser o melhor. Vamos Santa Cruz.

domingo, 5 de setembro de 2010

Infância.

Na época do colégio, mais ou menos na sétima série, tinha uma tal de Juliana na sala. Sabe aquela menina muito simpática, que fala com todo mundo sempre mostrando um sorriso maior do que o próprio rosto? Até mesmo para aquele velhinho característico de 67 anos que vende bombom e picolé na saída de todo colégio? Pronto. Ela não era assim. Era pior. Bem pior que isso. Juliana, ou simplesmente Ju para os mais íntimos (e quando eu falo íntimos, eu quero dizer quase todo o colégio, com exceção do carteiro, que quase ninguém o via, o segurança solitário da madrugada e a diretora que tinha inveja do corpo sensual da simpática Ju. Aliás, para a diretora, Juliana Oliveira), deixava os garotinhos loucos. Uma coisa é certa, muitos desses pré-adolescentes passaram mais de 35 minutos no banheiro fazendo outra coisa que não era tomar banho. Tudo isso só por causa da Ju. Tá, tinha também essa historinha de que, nessa época, os hormônios estão à flor da pele. Mas ver a Ju falando com um pirulito vermelho na boca enquanto jogava o cabelo longo e louro para um lado e para outro era sacanagem. Não tinha falta de hormônio que segurasse os pensamentos férteis daqueles meninos. O Luquinhas mesmo, coitado, magro igual a sibito baleado, com aqueles óculos fundo de garrafa, um aparelho fixo e outro móvel que atrapalhavam bastante a sua dicção e uma coleção de espinhas na testa doada pelo cabelo oleoso que escondia a metade do seu rosto, era louco pela Ju. Enquanto os outros garotos passavam 35 minutos no banho, ele deveria passar, pelo menos, 1 hora e 20. E olhe que a criança tomava banho umas 4 vezes por dia. Ele era o mais apaixonado. Fazia declarações no seu caderno, que tinha na capa uma ilustração do Wolverine, personagem do X-Men. Pra você ter noção, uma vez, a Ju estava tão satisfeita com um pirulito, dessa vez de uva com chiclete dentro, que o intervalo tocou e o coitado do Luquinhas demorou uns 5 minutos pra levantar da cadeira. Provavelmente não queria passar vergonha quando, ao se levantar, todos os colegas percebessem que havia um corpo estranho querendo sair pelas suas calças. Acho que o Luquinhas só foi esquecer a Ju depois da sua segunda namorada, ou seja, lá pros 24 anos. Ninguém sabe dizer, mas a Ju foi a primeira menina dos sonhos de todos os garotos do colégio São Sebastião de Lurdes Maria Castro Batista de Boa Viagem. Era por isso que ninguém gostava do Fernando, aquele paulista otário, feio, chato, riquinho metido à merda que namorava a lindíssima e encantadora Ju. O garoto era quase do primeiro ano e tava com uma menina da sétima série. Que pedófilo. Não tinha vergonha nenhuma na cara. Ficava lá, beijando a Ju na frente de todos, como se tivesse mostrando um troféu pra uma plateia de fracassados. Mostrando não, lambuzando. Eu aposto que ele não sabia nem beijar direito. O Luquinhas mesmo, num ato desesperador de vingança e ciúme, já espremeu uma de suas espinhas no lanche do Fernando. E, apesar de realmente ser nojento, todo mundo aprovou, é claro.
- Oh, mano!
Oh, mano? Toma ai o "oh, mano", paulista de merda. Aposto que foi exatamente isso que todos os garotos pensaram naquela hora. Uma vingança por ter pego a garota da sala. A mais bela e inteligente de todas. Calma, inteligente nem tanto. Mas ela sempre tirava notas boas. Tudo bem que toda vez tinha alguém que dava fila pra a Ju, achando que algum dia ela iria retribuir com algo melhor do que um sorriso e um obrigado (que muitas vezes nem acontecia). Mas, apesar do ato nunca ter se concretizado, não custava nada tentar. O ruim é que o tempo foi passando, todo mundo foi crescendo. Inclusive a Ju. Aliás, em especial a Ju. Ela cresceu tanto, tanto que acabou ganhando outro apelido: Big Ju. Da sétima para o primeiro ano, a Ju engordou uns 30kg. O paulista foi o primeiro a se mandar. Engraçado é que, no final das contas, até que ele era um cara limpeza, gente fina. Acabou ficando no nosso grupinho quando a gente passou de ano e ele repetiu. Duas vezes. Mas o cara realmente era gente boa. Já a Ju, ou melhor, Big Ju não era mais aquela coisa, sabe? E a gente viu que tudo era passageiro, tudo mudava. Menos o velhinho do picolé, que, até hoje, ainda tá lá.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Meu meio.

Vida de redator é complicado. Quisera eu ter escolhido outra profissão mais promissora, onde você pensasse pouco e ganhasse muito. Mas a paixão que arde cada vez que uma ideia boa bate na cuca é algo emocionadamente viciante. Um vício que começa pelo cérebro e acaba lá mesmo. É nessa hora que você fica sentado, curtindo a vibe criativa que entretém seu ego. Pena durar tão pouco. Quando você menos espera, já recebe um PIT novo que fica estagnado no canto direito da sua mesa. Ideia vem, ideia vai e nada. Tudo é básico ou xerox falsa de uma campanha já existente. De um minuto para o outro, você deixou de ser o herói e virou o vilão. Até o momento que vem aquela ideia do caralho! (Termo usado por 99,99% dos publicitários quando uma ideia é alem do excepcional). É ai que o bicho pega, a overdose criativa acontece e a paixão vira amor. Tudo isso seguido pelo pensamento: eu amo o que faço, mas odeio o que me pagam. É inevitável, todo publicitário vai achar que recebe pouco pelo que faz. Mas sabe de uma coisa? É a pura verdade. Todos nós sabemos disso, mas temos medo de confrontar a dura, malvada e mentirosa realidade. É uma atitude covarde que se alimenta pelo amor ao trabalho. De vez em quando eu penso: e se houvesse uma greve dos publicitários? A resposta também é uma pergunta: iríamos ganhar mais? Pronto. Não ouso ir além disso numa discussão insana como essa. Pelo visto, deu pra perceber que essa minha indagação é tão medrosa quanto as decisões de alguns clientes regionais, que, em questão de inovação, estão mais que ultrapassados. Mas será que realmente eles têm medo? Ou apenas entraram naquela área cômoda onde as ideias criativas caíram mortas dando lugar à preguiça cerebral? Enfim, vou parar por aqui. Até porque já são muitas perguntas para alguém que sempre tem que ter respostas.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Lembranças.

Eu tinha uma amiga que deixou de ser minha amiga. Não houve briga, nem confusão. Deixou, sumiu, passou. Ou ficou, não sei ao certo. Mas a gente costumava ter uma bela amizade. Sabe quando você fica anos sem ver alguém, mas quando tem algum contato com essa pessoa é aquela festa? A gente era assim. Abraços, carinhos, conversas e nenhum duplo sentido. Coisa rara hoje em dia.
Ela tinha um cabelo curto, aqueles bem modernos para a época, onde quase ninguém sabia quem era Eddie e achava que Bossa Nova era música para idosos (Ainda bem que a gente amadurece). Hoje, ser “cult” é ser legal. Engraçado como as coisas mudam, não é mesmo? Pois é, nossa amizade também mudou. Mas nesse caso, eu acho que mudar não é a palavra certa, desaparecer seria mais apropriado. Tudo bem que a gente não tinha aquela amizade, onde você sabe tudo sobre a pessoa e a pessoa sobre você. Mas você sente que existe algo diferente, uma conexão. Muitos dizem destino, outros dizem que são os cosmos iluminados, eu digo que bateu e pronto.
Até hoje eu lembro, um sorriso lindo com aqueles dentes brancos bem juntinhos. Ela sorria, todo mundo sorria junto. E as unhas? Coloridas conforme a roupa. Se saísse de camisa azul, as unhas eram azuis. E olhe que ela, como toda pessoa normal, mudava de roupa todo santo dia. É, tudo bem, ela não era assim, tão normal, mas era limpinha. Limpinha até demais. Mas, voltando às unhas, e que unhas, eram grandes e, além de chamarem muita atenção, faziam um carinho que só elas sabiam fazer. Para cima, para os lados e para baixo. Bastava isso e todos os cabelos do corpo subiam imediatamente. Às vezes, parecia até que tinham vida própria.
Ela usava colares diferentes, várias pulseiras e sempre balançava bastante a mão quando falava com alguém.
- Xandão! E logo depois vinha um abraço. Só três pessoas me chamavam assim: ela, a melhor amiga dela e uma personagem de outra história. De vez em quando, a melhor amiga dela ainda me chama assim, mas confesso que não gosto de ouvir. Não por não gostar do apelido, mas por trazer lembranças.
Lembranças de uma simples ligação: - Você soube?! E veio a surpresa: - Isso é mentira! Você é doida?! Infelizmente, a pessoa do outro lado do telefone não tinha nenhum problema mental. Ainda lembro como se fosse ontem. As lágrimas caindo, meu primo ao meu lado e minhas mãos indo em direção à parede. Murros e mais murros seguidos de raiva, ódio, desespero, tristeza, solidão.
Cadê o sorriso encantador? Cadê as unhas que faziam carinho nas minhas costas? Cadê o abraço que me recebia tão calorosamente? Cadê minha amiga? Cadê Nany?
A dor vinha e a imagem daquela menina meiga, inteligente e super divertida a acompanhava. Desespero e mais desespero. Aliás, não sei nem que palavra usar. Desespero é simples, básico. Queria algo mais forte, mas até hoje não encontrei. O sorriso, transformado em choro. O abraço, em vazio. A unha, em algo irreversível.
Em 2005, eu tinha uma amiga que deixou de ser minha amiga. Não houve briga, nem confusão. Houve o inesperado, o inconstante, a vida. E digo: nunca tive oportunidade de dizer que a amava como uma grande amiga.

Beijos Nany. Espero te encontrar de novo e quem sabe poder receber aquele carinho que fazia qualquer cabelo ficar arrepiado.