Quem dera. Ele nunca conseguiu ser alguém na vida, quanto mais agora, nesse momento delicado e incerto. Nas oportunidades, não assegurava seu lugar no pódio para garantir um espaço, mesmo que seja medíocre, como o terceiro lugar. Nas desvantagens, que sempre estiveram presentes no seu caminhar, ele nunca se sobressaiu, nem quis, nem buscou. Sempre fora um ser ordinário e trivial. Tão insignificante quanto seus livros não lidos guardados eternamente nas estantes do seu quarto, que usara apenas para dormir, quando não tinha insônia.
Certamente, ser alguém na vida não é um fardo a ser adquirido por ele. Mas, como a vida é cheia de acontecimentos divinos que surpreendem a cada movimento de um ponteiro de relógio, ele descobriu um alguém e, inesperadamente, se apaixonou. Só isso bastou. Nada além seria necessário para mudar a atual posição de retrocedência, grudada bruscamente no seu ser, um retrocesso fatal que causava uma inquietação aniquiladora, algo como: não sou ninguém.
Bastou isso. Saber que alguém precisava dele, que um olhar nos olhos pode durar uma eternidade, mesmo que ela seja meros segundos. Ser importante e dar importância à pessoa. Tocar. Acariciar. Se dar. Bastou. Nada mais. De um segundo para o outro, ele deixava seu posto de ninguém, para se consagrar como um alguém. Uma utopia que na verdade era lúdica. Utopia, por ser o ideal que o levava à condição de existência; lúdica, por ser tão insegura que, com uma fragilidade única, pode tornar-se uma brincadeira amorosa, assim como ser pego num pega-pega da vida.
Mas ele sabia que valia apena arriscar. Essa sensação não era apenas uma reação química dentro do seu cérebro, era algo a mais. Mesmo com a eterna dúvida do ter mesmo não tendo, ele sabia que ela, ao se aproximar tão intimamente, modificou seu estado de um ser inexistente para um ser apaixonado.
Quem dera. Por causa de um outro qualquer, ele conseguiu ser alguém.
terça-feira, 14 de abril de 2009
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